Sandra Oh fala sobre a vida, família e Grey’s Anatomy.
Ela não é a loira de nariz arrebitado, e não é ela que vai ficar com o McDreamy. Mas é ela que a gente ama.


OH, SANDRA!

“Bem, no começo eu queria ser a Cindy, porque eu amava o cabelo dela.”
Sandra Oh está dando pulinhos, tentando se manter aquecida; por algum motivo o estúdio de Grey’s Anatomy tem a temperatura de um frigorífico. Pra passar o tempo, ela e alguns membros da equipe da série estão me fazendo jogar "Marcia, Jan, ou Cindy?" – porque, como todos sabemos, a criança com a qual você se identifica da Família Sol-Lá-Si-Dó (The Brady Bunch) revela tudo sobre sua personalidade. “Mas quando fiquei mais velha, queria ser a Jan”, continua Oh. Artística? Emocional? Um pouco insegura? Ela concorda, e acrescenta: “E a clássica ‘filha do meio’.”

Oh volta ao set para mais uma tomada. Grey’s Anatomy é um programa bem meticuloso, e Oh se preocupou se eu não ficaria entediada com as várias repetições. Ao contrário – como fã, fico pateticamente impressionada com tudo. Fico impressionada que Justin Chambers, como o Dr. Alex Karev, consegue dizer a palavra “platismaplastia” uma 20 vezes seguidas; que Katherine Heigl, com as câmeras desligadas, dá um arroto que deixaria qualquer garoto de fraternidade orgulhoso. Mas ainda mais fico impressionada com a Sandra Oh em close. Ela tem um dos rostos de maior expressividade da televisão – num momento, duro e impassivo, depois, carinhoso, acolhedor, tudo isso mal movendo um músculo. Esse rosto, junto com a maravilhosa escrita de GA, tornou o que seria mais uma cirurgiã de uma novelinha médica numa mulher que a gente ama e pela qual a gente torce, mesmo discordando dos momentos sem-noção-emocionais dela.

“Sempre quis fazer a Cristina muito focada e ambiciosa – que é a realidade para uma cirurgiã”, Oh me disse mais cedo. “Quero dizer, na vida real não existem muitas. Mas as que você encontra são as tops no que fazem. Você tem que ter uma personalidade forte pra sobreviver.”

Chandra Wilson, a Miranda Bailey, diz: “Nunca conheci uma atriz tão consciente, tão analítica, quanto a Sandra. Ela pensa em cada palavra que sai da sua boca”. Menos quando as câmeras estão desligadas: “Me lembro do nosso primeiro dia juntas. Eu tava lá, andando, dando ordens, gritando, fazendo o que tinha que fazer“. Aparentemente, Oh se impressionou, porque, depois dessa tomada, ela virou pro resto do elenco, apontou para Wilson, e disse “Ai, meu Deus, eu quero fazer sexo com ela!” “Assim que fui apresentada à Sandra”, diz Wilson.

No dia anterior à visita ao set, conheci Oh num restaurante indiano. Ela tem 35 anos, mas sem maquiagem, parece ter 25. Ela está usando uma sobreposição de regata com camiseta, mais um casaco com a manga cobrindo a mão. Mas o que chama minha atenção é a coruja pendurada no pescoço dela. É de metal e cerâmica, do tamanho de uma prato. Aí então eu entendo como Oh poder ser considerada dentro da moda (como o Ungaro vintage do SAG Awards) e estar na lista dos mais mal vestidos do Mr. Blackwell.

Apesar de toda atenção dos últimos três anos – da imprensa de moda, revistas de celebridades, premiações (ganhou um SAG e um Globo de Ouro), Oh já achou que ia passar a vida fazendo o papel de assistentes fajutas em séries. Aí então ela mandou muito bem em Sideways, num papel principal num dos filmes dramáticos de maior sucesso da temporada, e, do nada, passou freqüentemente a aparecer na revista Us. Você sabe que sua carreira vai bem quando parte do documento do seu divórcio aparecem no tmz.com. Certo?

“Eu não presto atenção nessas coisas. Nem olho”, ela me diz, se referindo às fofocas na imprensa sobre seu divórcio do diretor de Sideways, Alexander Payne. “Eu digo ao meu pessoal que não quero saber, pois por mais que você saiba que é ridículo, pode acabar se magoando. Pode me abalar e mudar meu jeito de ser.”

Quem é a Oh autêntica? Como Cristina Yang, ela teve seus momentos de conquistas: ela tinha honras no colégio e era do conselho estudantil. E como seu alter ego da televisão, Oh tem uma certa dificuldade com tarefas domésticas: seu trailer é cheio de roupas, livros, fitas, fotos soltas, suplementos nutricionais. Pra sentar, tive praticamente que escavar o banco. “Você tinha que ver minha casa”, diz ela. “É meio explosiva. Como se uma pessoa maluca morasse lá.”

Mas de certos modos, Oh é a anti-Cristina. Pra começar, ela adora abraçar. Depois, ela é generosa e não-competitiva o suficiente pra aplaudir e ainda por cima levantar e gritar “Woo-hoo!” quando Wilson ganhou o SAG Awards. Ela nunca assiste Grey’s Anatomy, mas é viciada em Os Simpsons. Ela acredita em terapia, cognitiva e farmacológica, e gosta de falar – apesar de, diferentemente da maioria dos atores, ela também gostar de ouvir, e é naturalmente empática e confiável. Talvez até demais, ela se preocupa. “Quando sua vida muda e você se torna uma pessoa pública, de certa forma você precisa ser mais fechada, sabe?”

Como agora. Nem ela, nem Payne falaram sobre o divórcio. Oh ainda acha o assunto doloroso demais pra comentar a respeito. E um novo relacionamento? “Não dá. Simplesmente não dá.” (dizem que ela está namorando Andrew Featherston, percursionista da banda indie The Hereafter.)

Então, enquanto ela ainda não fala sobre seu casamento, ela leva na esportiva todo o resto. Acho que se pedisse pra ela recitar a fala “naughty, naughty nurses”, ela o faria.


SEU CAMINHO PARA O SUCESSO

Oh cresceu em Ottawa, Canadá, parte de uma pequena comunidade de imigrantes coreanos. “Onde quer que os coreanos estejam, eles armam uma igreja”, ela diz. “Não éramos muitos, talvez 10 famílias, então era tipo uma igreja no porão de uma igreja”. Foi lá que ela e seus irmãos passaram a maior parte de seu tempo; eles até acampavam lá. “Eu não acreditava que crianças americanas tinham que viajar pra acampar, elas iam e se apaixonavam por meninos e tudo isso”, diz Oh.

Essa religiosidade precoce fez dela simultaneamente a menina boazinha e a menina rebelde – Jan, se preferir – e esses conflitos nunca foram totalmente resolvidos. Por um lado, ela é uma feminista, que se sente ofendida por atrizes geralmente receberem menos que atores na televisão. Entretanto, até hoje ela se preocupa com o que seus pais pensam (Imaginem se eles soubessem que... Atenção, pais da Sandra Oh: sua filha é perfeita! Não há nada pra ver aqui, continuem...).

Eles a colocaram em aulas de dança quando ela tinha 4 anos, na esperança de tentar corrigir seus dedões de pombo, mas ficaram abismados ao verem sua filha no palco. O pai dela veio para o Canadá para estudar economia, e a mãe, bioquímica, então ter uma filha mais interessada em jazz do que em contas não era a idéia deles. “Eles achavam que ser ator era uma coisa sem propósito”. diz Oh. “Era tipo ‘O que você está fazendo pela sociedade? Você está sendo uma boa cristã?’ Eram imigrantes clássicos – queriam que seus filhos fossem advogados ou médicos. Minha irmã é advogada e meu irmão está acabando seu doutorado em medicina genética. Eu, fazendo uma médica na TV? Não poderia ser melhor!”

Oh começou a trabalhar profissionalmente na televisão, teatro e comerciais com 15 anos. Ela estudou na National Theatre School of Canada e se mudou para Toronto, onde encontrou vários trabalhos – mas nenhum pagava nada. “Sandra decidiu que não ia fazer nada além de atuar, mesmo se ela estivesse falida”, disse Margo Purcell, melhor amiga de Oh desde a 3ª série. No início dos anos 90, quando ela quase desistiu de tudo, ela achou que fosse um sinal quando ganhou na loteria – e ela literalmente ganhou na loteria “Cinco mil dólares com uma raspadinha“, diz Oh. “Paguei algumas contas”.

Aos 19 anos, Oh venceu outras 1000 mulheres pelo papel principal no filme O Diário de Evelyn Lau, sobre uma jovem poeta chinesa que fugiu dos pais extremamente rígidos e virou viciada e prostituta. O diretor Sturla Gunnarsson ainda se lembra de como Oh ganhou o papel. “Quando ela chegou no teste, ela pediu um momento pra se concentrar. Aí ela deitou no chão por cinco minutos. A maioria a teria chutado pra fora da sala. Eu achei formidável uma garota de 19 anos ter a confiança – e a audácia – de fazer isso”. Oh ganhou o Gemini (o Emmy canadense) pela sua performance.

Ainda assim, quando ela se mudou para L.A. em 1996, não foi fácil achar trabalho. “Me lembro de uma agente que era tão malvada”, Oh se lembra. “Ela disse ‘As pessoas vão mentir pra você, mas eu não vou mentir. Alguém gosta de você’ – e você sabe o que isso significa, né? – ‘você não vai arranjar trabalho’”.

Não apenas por Oh ser asiática; é que ela não era o tipo de asiática que queriam, com aquele ar delicado, etéreo, submisso, zen. Então foram anos de ‘passando’, ‘uma fala’, ‘melhor amiga’ e ‘tiras’. O casamento de Oh pode ter ido por água abaixo, mas ela com certeza tem algo a agradecer ao seu ex-marido: quando ele a escalou para a sexy vendedora de vinhos de Sideways e disse pra ela entrar na sua “fúria feminina coreana”, ele a colocou na trilha do estrelato.

Grey’s Anatomy tem sido popular quase que desde seu começo, e com isso vêm os problemas. No backstage do Globo de Ouro, dois dias antes da minha visita ao set, Isaiah Washington negou ter chamado T.R. Knight de “bichinha”, voltando, assim, a tensão que a ABC e os produtores pensavam ter ficado de lado. Querendo manter seu emprego, Isaiah, cuidadosamente, pediu desculpas e foi fazer reabilitação.

Perguntei a Oh sobre o bafafá; afinal, se Washington tem problemas, isso a afeta diretamente, já que a maioria das suas cenas é com ele. Mas mesmo se não fosse esse o caso, o xingamento de Isaiah foi de extrema importância pra Oh, já que ela já foi declarada “ícone gay” pela revista Out (“Por eu ter interpretado personagens gays? Por eu representar ‘ou outros’ dessa maneira estranha? Talvez por eu adorar moda? Não sei o porquê, mas isso me deixa feliz.”). Ela fala cuidadosamente. “Dá pra prever o que vai te acontecer com essa fama. Isso afeta as pessoas muito intensamente. Algumas pessoas crescem. Outras se tornam mais espirituais. E algumas simplesmente aceitam isso.”

Tradução e adaptação: Gαbrieℓℓe brunnєr
Fotos: Cortesia Flog Grey's Brasil
Por Anonymous @ 11:16 PM _ _ link desse tópico

Definir como HomePage // Adicione aos Favoritos // Contato